O PAI, UM REI.
O pai, um grande rei guerreiro, estava em seu leito agonizando. Sua gente havia vencido a batalha, mas após terminada a luta com seu prazer, o pai, o rei percebeu o profundo ferimento que havia perfurado seu pulmão. O rei mal conseguia respirar. Seus cabelos cor-de-prata, manchados com gotas de sangue do inimigo, eram agora acariciados pelas mãos duras de sua mulher que sempre o amara e que sempre foi amada, a cada dia mais. A cabeça do pai repousava no colo macio de sua amada mulher. À volta do leito estavam seus filhos e filha, genro e noras, netos e netas, e um deus. Alguns deles e delas choravam, outros se continham, mas todos tinham seus olhos transbordando ou quase. O deus estava rígido em seu canto, quieto observava. O rei olhava o telhado de sua cabana, sem mudar a direção do olhar disse num susurro:
"Como me foi prometido, Lutei bons combates, Amei, Fui amado, Morro com o carinho de quem amo, Com a tristeza de quem me admira, Com um deus me velando."
Mas, logo seu olhar se entristeceu, e sentiu medo:
"Porque tenho de ir ? Há lutas a lutar, Posso amar mais minha amada, Posso mais me orgulhar de meus filhos, Guiar minha família."
O deus com um olhar respondeu :
"Você não viveu pouco nem muito, Você viveu o tempo de uma vida."
Voltando para a rigidez de seu canto disse :
"Ouça os que te amam, Eles estão aqui para serem ouvidos."
Sua filha, aquela que ele chegou a comparar seu cabelo com chamas que clareiam e esquentam uma noite fria, se aproximou com seu rosto sujo da batalha (naquele tempo as mulheres também lutavam e orgulhavam seus pais).Ela recitou uma prece em voz alta:
"O paraíso meu pai, É um momento em que para ti Houve a maior felicidade, O paraíso meu rei, Terá seus filhos e filhas, Genro e noras, Netos e netas, Ao seu lado na batalha, Felizes por mais uma vitória, E quando voltarmos, Sua amada estará esperando, Com o seu manjar preferido, E riremos e festejaremos à noite, E por três dias e suas noites, Festejaremos ainda. Será sempre admirado, Como foi nesta pobre terra, Até o momento de unirmos nossos espíritos, E vivermos para sempre, Graças ao nosso amor, Ao seu amor por nós."
Agora todos choravam e o deus no seu canto, impassivo.
O pai sorriu e dormiu.
O deus chorou.
Escrito por Nocte às 19h22
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